A nova declaração do governo Trump sobre PCC e CV que preocupa o governo Lula: 'Ameaças à segurança regional'
Quais os critérios dos EUA para classificar organizações terroristas estrangeiras? O Departamento de Estado dos Estados Unidos disse nesta terça-feira (10) ...
Quais os critérios dos EUA para classificar organizações terroristas estrangeiras? O Departamento de Estado dos Estados Unidos disse nesta terça-feira (10) que o governo americano vê as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como ameaças de alcance regional. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp A informação consta de uma nota publicada inicialmente pelo jornal O Globo e confirmada pela BBC News Brasil. A declaração acontece após o portal UOL ter publicado reportagem no domingo (8) sobre a intenção do governo de Donald Trump de classificar as duas facções brasileiras como organizações terroristas. "Os Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional", diz um trecho da nota. Sobre a possibilidade de classificá-las como organizações terroristas, a nota diz que o governo americano não faz previsões sobre "potenciais designações terroristas ou deliberações relativas a designações terroristas" e que o país estaria "totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas". Diplomatas e integrantes do governo Lula ouvidos reservadamente pela BBC News Brasil avaliam que uma medida desse tipo não seria tecnicamente correta, uma vez que não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo sob a lei brasileira. Nos bastidores, o temor é que a classificação das facções como organizações terroristas seja usada para justificar ações, inclusive militares, na região, a exemplo dos bombardeios a barcos na Costa de países como Colômbia e Venezuela sob o pretexto de combater o narcotráfico. Uma fonte ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que, no domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre o tema. Procurado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil não comentou o assunto. O episódio ocorre em um momento delicado da relação bilateral. Brasil e Estados Unidos vêm negociando, há pelo menos dois meses, a realização de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. Lula chegou a dizer que a reunião poderia acontecer no dia 16 de março, mas a data não foi confirmada. ENTENDA: Os critérios dos EUA para classificar organizações terroristas estrangeiras Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), falam a jornalistas antes de reunião em Kuala Lumpur. Evelyn Hockstein/Reuters Por que governo não considera que facções sejam grupos 'terroristas' A discussão sobre a designação de facções brasileiras como entidades terroristas vem sendo tratada pelos dois governos há pelo menos um ano. Em maio de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, disse à agência Reuters que o governo brasileiro havia rejeitado um pedido sobre o assunto feito por David Gamble, um oficial do Departamento de Estado americano responsável pela estratégia do país em relação a sanções. Na época, Sarrubo descartou a tese de que as facções brasileiras atuem como organizações terroristas. "Nós não temos organizações terroristas aqui. Nós temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade", disse Sarrubo à época. A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) brasileira classifica como terrorismo os atos "cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública". A lei diz ainda que esses atos devem ter "razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião". Por isso, argumenta o governo, não seria correto classificar o PCC e o CV como organizações terroristas. De acordo com o governo, a atuação das facções é movida por interesses econômicos e não políticos. Nessa interpretação, sua finalidade seria econômica — não política ou ideológica. Parlamentares de direita, no entanto, especialmente os mais alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) defendem que PCC e CV sejam enquadrados como organizações terroristas. Parte da base bolsonarista apoia um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional que equipara os crimes praticados por facções criminosas a atos de terrorismo. O projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados e ainda precisa ser aprovado pelo Plenário da Câmara e do Senado antes de ser enviado à sanção do presidente Lula. Marco Rubio e Mauro Vieira após reunião em 13 de novembro de 2025 Reprodução/X