Corredor flagra carcará capturando e devorando falsa-coral no interior de SP
Corredor flagra carcará capturando e devorando falsa-coral no interior de SP Um carcará (Caracara plancus) foi flagrado segurando e se alimentando de uma serp...
Corredor flagra carcará capturando e devorando falsa-coral no interior de SP Um carcará (Caracara plancus) foi flagrado segurando e se alimentando de uma serpente identificada como falsa-coral em uma estrada de terra de Botucatu (SP). O registro foi feito pelo metalúrgico e corredor Diogo Tomé Franco, que presenciou a cena durante um treino em um domingo chuvoso. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Diogo passou pelo local sem perceber o que acontecia. Ao chegar ao fim da estrada e retornar pelo mesmo caminho, avistou a ave sobre uma cerca, segurando a serpente com as garras. Surpreso, Diogo tentou pegar o celular para filmar, mas a chuva dificultou o manuseio do aparelho. Depois de secar o telefone, conseguiu registrar o comportamento até o momento em que a ave levantou voo, levando a serpente consigo. “Foi um momento inesperado, um sentimento de surpresa e alegria de conseguir gravar aquele momento e ainda de presente ele saiu voando com a presa”, conta Diogo. Praticante de corrida, o metalúrgico costuma escolher trilhas e estradas próximas à natureza para treinar. Apesar da familiaridade com esses ambientes, nunca havia presenciado uma cena semelhante. “(A natureza) é meu local preferido para correr em trilhas. Mas nunca vi algo assim. Essa foi a primeira vez”, relata. Corredor flagra carcará capturando e devorando falsa-coral no interior de SP Diogo Tomé Franco VEJA TAMBÉM: 'Macaco velho não põe a mão em cumbuca': conheça a árvore brasileira que deu origem ao ditado popular Fotógrafos percorrem mais de 5 mil quilômetros pelo Brasil em busca de registros da natureza 'Censo dos besouros' revela quase 36 mil espécies no Brasil e projeta uma nova a cada dois dias Função do bico e das garras Carcara utiliza garras e o bico para caputrar e se alimentar das presas dilledoux/iNaturalist No vídeo, as garras e o bico do carcará desempenham funções diferentes durante a captura e o consumo da serpente. Segundo o ornitólogo Fernando Igor de Godoy, as garras ajudam a segurar e imobilizar a presa e podem provocar lesões graves. Já o bico forte e curvo é adaptado para perfurar e rasgar os tecidos dos animais, característica anatômica compartilhada com outras aves de rapina. Embora essas aves utilizem principalmente as garras para conter suas presas, a forma de abate varia conforme a espécie e o tipo de animal capturado. No registro feito em Botucatu, aparentemente, o carcará utiliza as garras para manter a serpente imobilizada enquanto emprega o bico para perfurar e dilacerar seus tecidos. Predador oportunista Considerado oportunista, caracará também é caçador hhulsberg/iNaturalist Embora sejam frequentemente associados ao consumo de carcaças, os carcarás também podem capturar animais vivos. De acordo com o ornitólogo, a espécie tem hábitos oportunistas, apresenta uma dieta variada e não é especializada exclusivamente na caça de serpentes. “Não é possível afirmar com certeza, mas, por ser uma espécie oportunista, o carcará pode tentar capturar uma serpente atravessando a estrada sem necessariamente depender de adaptações de caça altamente especializadas”, explica o ornitólogo. Segundo Fernando Igor, é comum encontrar carcarás às margens de rodovias, onde aproveitam carcaças de animais atropelados. As aves também consomem restos deixados por outros predadores. Esse comportamento permite que a espécie explore diferentes fontes de alimento, sem depender exclusivamente da captura de presas vivas. Ainda assim, o especialista explica que o carcará também pode caçar quando encontra uma oportunidade. A ave pode capturar outras aves, lagartos, anfíbios e caramujos, além de consumir frutos e restos de comida descartados por humanos. A capacidade de explorar diferentes fontes de alimento permite que o carcará ocupe ambientes rurais e urbanos. E se a serpente fosse peçonhenta? Ave é capaz de capturar serpentes peçonhentas ninawenoli/iNaturalist Embora a serpente registrada por Diogo tenha sido identificada como uma falsa-coral, a cena levanta uma dúvida: e se fosse uma coral-verdadeira? De acordo com Fernando Igor, aves de rapina são capazes de capturar serpentes, inclusive espécies peçonhentas, utilizando estratégias que ajudam a evitar o bote. Nesse caso, a proteção não depende necessariamente de um mecanismo químico de defesa contra o veneno, mas da capacidade de conter a presa e utilizar a agilidade para desviar dos ataques, evitando uma picada. O ornitólogo também explica que, quando uma serpente peçonhenta é consumida, o veneno ingerido tende a ser degradado pelo sistema digestório. A situação é diferente quando o veneno é inoculado diretamente no organismo por uma picada. Nesse caso, as toxinas podem alcançar os tecidos e a circulação sanguínea sem passar primeiro pelo processo digestivo. Isso não significa, porém, que o carcará seja imune ao veneno. O risco depende das características da toxina e da forma como ela entra em contato com o organismo. Assim, embora a espécie possa consumir serpentes peçonhentas, uma eventual picada durante a captura representa um risco. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente