cover
Tocando Agora:

Desastre em Maceió, dívida alta e queda no setor: o caminho da Braskem até a recuperação extrajudicial

Justiça do Trabalho determina que Braskem pague plano de saúde de químico diagnosticado com leucemia na Bahia Divulgação/Braskem A decisão da Braskem de r...

Desastre em Maceió, dívida alta e queda no setor: o caminho da Braskem até a recuperação extrajudicial
Desastre em Maceió, dívida alta e queda no setor: o caminho da Braskem até a recuperação extrajudicial (Foto: Reprodução)

Justiça do Trabalho determina que Braskem pague plano de saúde de químico diagnosticado com leucemia na Bahia Divulgação/Braskem A decisão da Braskem de recorrer à recuperação extrajudicial marca o capítulo mais recente de uma crise que se arrasta há vários anos. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 O processo é resultado da combinação de três pressões: os custos bilionários do desastre geológico em Maceió, um período longo de margens mais baixas na indústria petroquímica global e o alto nível de endividamento. A recuperação extrajudicial é um mecanismo que permite renegociar dívidas com credores fora de uma recuperação judicial tradicional, com posterior homologação da Justiça. Esse cenário passou a afetar diretamente a capacidade da companhia de gerar caixa e manter o pagamento regular de suas obrigações. À medida que as despesas aumentavam e os resultados operacionais se enfraqueciam, o equilíbrio financeiro da empresa se deteriorava. A seguir, o g1 explica os fatores que levaram a Braskem, maior petroquímica da América Latina, a enfrentar uma das crises mais profundas de sua história. O desastre em Maceió Crise no setor petroquímico Dívida elevada e pressão financeira Mudança no controle e reestruturação Impasse com credores e recuperação judicial Veja os vídeos que estão em alta no g1 O desastre em Maceió É difícil separar a origem da crise financeira da companhia do desastre ambiental em Maceió. A exploração de sal-gema, tipo de sal extraído do subsolo e usado pela indústria química, na capital de Alagoas, começou na década de 1970. A atividade era conduzida pela então Salgema Indústrias Químicas S.A., empresa que mais tarde daria origem à Braskem. Décadas depois, começaram a surgir sinais de instabilidade no solo em bairros da capital alagoana. As primeiras grandes rachaduras foram registradas em fevereiro de 2018, no bairro do Pinheiro. No mês seguinte, um tremor de terra agravou as fissuras e levou ao início da desocupação da região. Em maio de 2019, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) concluiu que o fenômeno estava relacionado à mineração de sal-gema feita pela companhia. O episódio provocou um dos maiores deslocamentos urbanos já registrados no país. Mais de 14 mil imóveis foram desocupados e cerca de 60 mil pessoas foram afetadas. Bairro do Mutange, em Maceió, antes de depois da demolição dos imóveis desocupados por causa da mineração g1 AL Diante das consequências do desastre, a Braskem firmou acordos com autoridades locais para compensar e reparar os danos. Um desses compromissos, assinado em 2023, previa o pagamento de R$ 1,7 bilhão ao município de Maceió, segundo o relatório de resultados da companhia. Em novembro de 2025, foi firmado outro acordo, desta vez com o governo de Alagoas, no valor de R$ 1,2 bilhão. Paralelamente ao pagamento das indenizações, a petroquímica criou um programa de compensação financeira e apoio à realocação de moradores das áreas afetadas. A Braskem já desembolsou mais de R$ 4,2 bilhões em indenizações, auxílios temporários e apoio à realocação de moradores e comerciantes afetados pelo afundamento do solo em Maceió. Apesar disso, a empresa ainda mantém R$ 3,24 bilhões reservados em seu balanço para cobrir custos futuros relacionados ao desastre e às medidas de reparação. Voltar ao índice. Crise no setor petroquímico Ao mesmo tempo em que arcava com os custos do desastre geológico em Maceió, a Braskem passou a enfrentar um cenário mais desfavorável no mercado internacional. Isso porque, nos últimos anos, a indústria petroquímica entrou em um período de produção elevada. 🔎 Parte desse movimento está ligada à rápida expansão industrial na China. Segundo relatório da consultoria ICIS (Independent Commodity Intelligence Services), o país adicionou mais de 18 milhões de toneladas por ano em nova capacidade produtiva em 2024, após aumentos recordes registrados em 2022 e 2023. Com mais produtos disponíveis no mercado, os preços passaram a cair. Ao mesmo tempo, o consumo perdeu ritmo em várias regiões do mundo, já que a inflação elevada e os juros altos reduziram a demanda por resinas e outros derivados químicos. Braskem, petroquímica que fazia exploração de sal-gema em Maceió, foi apontada como causadora das rachaduras em bairros de Maceió Divulgação/Braskem Esse desequilíbrio entre produção e consumo afetou a rentabilidade das empresas do setor e tende a persistir nos próximos anos. A agência de classificação de risco Fitch projeta que os spreads petroquímicos — diferença entre o preço do produto final e o custo da matéria-prima — devem permanecer baixos pelo menos até 2028. Para a Braskem, esse cenário aparece nos resultados mais recentes: o EBITDA recorrente da companhia — número que mede a geração de caixa da empresa — somou US$ 557 milhões em 2025, queda de 49% em relação ao ano anterior. Voltar ao índice. Dívida elevada e pressão financeira Os custos relacionados ao desastre em Maceió, somados ao enfraquecimento do setor petroquímico, passaram a afetar de forma mais direta a situação financeira da Braskem. No fim do ano passado, o endividamento da empresa — já descontado o dinheiro em caixa —, somava US$ 7,5 bilhões. A relação entre a dívida e a geração de caixa atingiu 14,7 vezes. 🔎 Esse indicador é usado pelo mercado para avaliar a capacidade de pagamento de uma companhia. De maneira geral, quanto maior esse número, maior tende a ser a preocupação de investidores e credores sobre a capacidade da empresa de cumprir seus compromissos financeiros. As dificuldades e desconfiança apareceram no preço das ações. Na B3, os papéis da Braskem acumulam queda de cerca de 82% desde o início da crise em Maceió, passando de R$ 42,05 em fevereiro de 2018 para R$ 7,51 em 18 de junho de 2026. Os efeitos da crise também atingiram as operações fora do Brasil. A Braskem Idesa, subsidiária da companhia no México, deixou de pagar juros de títulos com vencimento em 2029 e 2032 — situação que caracteriza um evento de calote (ou "default", no jargão econômico). No fim de março, a empresa iniciou negociações com credores para reorganizar sua estrutura de capital por meio de medidas judiciais semelhantes ao processo conhecido como Chapter 11 nos Estados Unidos. Voltar ao índice. Mudança no controle e início da reestruturação Em abril, a Novonor (antiga Odebrecht) assinou o contrato para vender o controle da Braskem ao fundo Shine I, assessorado pela gestora IG4 Capital. A operação envolveu a transferência de cerca de 50,1% das ações com direito a voto da petroquímica e estava ligada a aproximadamente R$ 20 bilhões em dívidas da holding garantidas por ações da própria companhia. Com a conclusão do negócio, em junho, a IG4 passou a dividir o controle da Braskem com a Petrobras. ➡️ A nova controladora assumiu as negociações com bancos e outros credores e começou a elaborar um plano para reorganizar as finanças da empresa, que acumulava uma dívida próxima de R$ 60 bilhões, incluindo os passivos da subsidiária mexicana Braskem Idesa. A proposta apresentada aos credores prevê mais prazo para o pagamento das dívidas, redução dos juros e períodos maiores de carência. O plano, porém, não prevê novos aportes de recursos dos acionistas nem a troca de parte das dívidas por participação na companhia. Voltar ao índice. Impasse com credores e recuperação extrajudicial No início de agosto, informações divulgadas pela Reuters apontavam que a Braskem estava em negociações avançadas para uma recuperação extrajudicial para reestruturar mais de US$ 10 bilhões (R$ 51,6 bilhões) em dívidas de suas operações no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. As negociações envolviam detentores de títulos de dívida e bancos, mas ainda não havia acordo. Os credores haviam rejeitado uma proposta da companhia que previa carência de cinco anos para o pagamento do principal e de dois anos e meio para os juros. Segundo a Bloomberg, parte dos credores também pressionava a Petrobras, uma das acionistas controladoras da Braskem, a fazer um novo aporte de recursos na companhia. A estatal, porém, resistia à ideia, entre outros motivos, pelo risco de ampliar sua participação na petroquímica e ter de consolidar a dívida da empresa em seu próprio balanço. ⚖️ A estrutura em discussão para a recuperação extrajudicial previa um período de suspensão de cobranças de 90 dias, durante o qual a empresa e os credores poderiam negociar um plano mais amplo de reestruturação. Além das dívidas relacionadas às operações no Brasil, nos EUA e na Europa, a Braskem também vinha negociando a reestruturação de US$ 2 bilhões em dívidas da Braskem Idesa, sua subsidiária no México. Na semana passada, a Braskem Idesa entrou com um pedido de Chapter 11 nos EUA para renegociar suas dívidas, após fechar um acordo com credores e acionistas. O processo faz parte da estratégia de reestruturação financeira do grupo e ocorreu em cronograma próximo ao pedido de recuperação extrajudicial anunciado no Brasil. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a Braskem pode levar de três a cinco anos para superar os problemas financeiros herdados da gestão anterior. Voltar ao índice. Braskem abre inscrições para programa de estágio Divulgação