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Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras, mas medida ainda depende de três etapas

O presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, esteve em Minas O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou durante eve...

Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras, mas medida ainda depende de três etapas
Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras, mas medida ainda depende de três etapas (Foto: Reprodução)

O presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, esteve em Minas O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou durante evento em Minas Gerais que as canetas emagrecedoras serão oferecidas de graça no Sistema Único de Saúde (SUS). A promessa ocorreu no mesmo dia em que anunciou o reajuste de 15% no Bolsa Família, que passa a valer em outubro. Entretanto, a oferta do medicamento no SUS não será imediata e depende de, ao menos, três etapas prévias que vão definir como e quem será beneficiado pelo medicamento. "As canetas emagrecedoras vão ser oferecidas no SUS. Elas vão ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sempre com muita responsabilidade e protocolos médicos rigorosos, e proporcionar maior qualidade de vida para a população", afirmou o presidente em post nas redes sociais. ETAPAS PENDENTES: Antes que o medicamento seja oferecido no SUS, é preciso que sejam superados três desafios: Avaliação e recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), seguida da decisão formal do Ministério da Saúde; Criação de um protocolo de uso e de uma política pública para obesidade que ainda não existem em nosso sistema público de saúde Definição do impacto orçamentário e da fonte de recursos. PRÓS, CONTRAS E IMPACTO DA MEDIDA: A medida é avaliada como necessária, pode exigir um orçamento bilionário, mas tem potencial de atingir milhões de brasileiros que evitariam as complicações da obesidade que têm um alto custo para o SUS. Hoje, o Brasil não tem no SUS um medicamento para tratar a doença. A única opção é a cirurgia bariátrica, que tem o desafio da fila para o acesso. Para especialistas ouvidos pelo g1, a oferta do medicamento é uma necessidade: mais de 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% já enfrenta um quadro de obesidade, que também é fator de risco para outras doenças. Após o anúncio de Lula, o Ministério da Saúde informou ao g1 que as canetas "vão ser implementadas de forma responsável". Na nota, o ministério não detalha quando o acesso ao medicamento deve estar disponível, impacto orçamentário ou as etapas pendentes antes da oferta. Lula durante evento de campanha com Padilha no qual prometeu a oferta das canetas emagrecedoras no SUS Reprodução/TV Globo O tema das canetas emagrecedoras - ou mesmo uma politicas específica sobre obesidade - não aparece no programa de governo de Lula registrado no TSE (saiba mais no podcast "O Assunto" sobre as propostas dos candidatos para a Saúde). Por outro lado, as canetas também não foram citadas por outros candidatos. ➡️ Por trás da fala do presidente, há uma série de movimentos que a pasta vem fazendo ao longo do ano: O Ministério da Saúde pediu rapidez para a Anvisa nas aprovações de novas marcas no mercado nacional, o que ajudou a elevar de uma para 14 o número de versões de canetas emagrecedoras aprovadas em 2026. Iniciou um projeto-piloto com semaglutida em Porto Alegre, hoje restrito a cerca de 250 pacientes com obesidade grave. Nenhum desses passos, porém, significa que o medicamento está perto de chegar de graça na Farmácia Popular ou nos postos de saúde do país. Necessidade do medicamento na rede pública Para o médico Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação do medicamento ao SUS é necessária — mas precisa ser tratada como política de Estado, e não como decisão de governo ou pauta eleitoral. "A incorporação desse medicamento é uma necessidade. Precisa ser feito com a garantia de continuidade do fornecimento, como uma política de Estado, não de governo, de partido, como algo eleitoreiro. É preciso garantir que vai ter distribuição para todo o país, de forma igualitária", afirma. (Leia mais abaixo) Abaixo, o g1 elenca o que há de concreto sobre a caneta no SUS e o que ainda falta avançar para que ela seja acessível na rede pública. Medicamento ainda não está disponível no SUS Freepik O que há de concreto sobre as canetas no SUS? Hoje, o único movimento concreto dentro da rede pública é um estudo-piloto, restrito a 250 pacientes na fila para a cirurgia bariátrica. São detalhes deste estudo que foram apresentados por Lula e Padilha no evento onde Lula assumiu o compromisso de oferecer as canetas no SUS.A pesquisa começou em 26 de junho deste ano e deve durar dois anos. Além desse estudo, não houve qualquer ampliação de acesso à semaglutida dentro do SUS. O que existe, além do piloto, são movimentos no mercado privado que podem facilitar — mas não garantem — uma futura incorporação. No início deste ano, caiu a patente que garantia à Novo Nordisk a exclusividade sobre a semaglutida, do Ozempic e Wegovy. Pouco antes do fim da exclusividade, o Ministério da Saúde pediu que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acelerasse a análise dos pedidos de registro de empresas nacionais e estrangeiras que tentavam registrar o medicamento no país. E funcionou: só esse ano foram 10 aprovações de semaglutida, entre elas duas genéricas – uma novidade no Brasil. O movimento refletiu no preço. Hoje, as doses iniciais são vendidas a R$ 300 na farmácia, valor bem abaixo dos quase R$ 1 mil cobrados pelo Wegovy, semaglutida da Novo Nordisk, até 2025. Por trás desse movimento havia um motivo: o ministro Alexandre Padilha já falava em incorporar o medicamento à rede pública -- ainda que isso não esteja no atual plano de governo de Lula para o próximo mandato. Em 2025, antes mesmo da queda da patente, ele vinha anunciando uma parceria para produção de canetas próprias no SUS com a EMS — primeira farmacêutica nacional a ter o registro aprovado. Até agora, porém, essa parceria não saiu do papel. Saúde vai criar protocolo para uso de caneta emagrecedora nacional no SUS, diz ministro O que ainda falta para chegar ao paciente? Mas a inclusão de um medicamento não deve ser uma decisão apenas política ou de governo — são necessários ainda alguns passos: Parecer favorável da Conitec O primeiro deles é a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O órgão, ligado ao Ministério da Saúde, avalia se um novo tratamento deve — e como deve — entrar na rede pública, considerando eficácia, segurança e custo. Na prática, a Conitec avalia o pedido de incorporação e seus impactos. O Ministério quase sempre segue a recomendação da Conitec — reverter uma recomendação da comissão é raro. É dela que depende qualquer novidade agora. A comissão se reuniu no dia 4 de setembro e fontes ouvidas pelo g1 afirmaram que havia a possibilidade de a semaglutida ser discutida naquele encontro. A decisão, no entanto, acabou sendo adiada, e, segundo a apuração, teria ficado para depois das eleições. A próxima reunião está marcada para 7 de outubro — data que só ocorre depois do primeiro turno. O anúncio feito por Lula não cita se isso está previsto ou quando deve acontecer. Tecnicamente, sem essa aprovação, o medicamento não pode estar acessível. Mesmo que a Conitec dê parecer favorável à incorporação, isso não significa que o medicamento chegará de imediato aos postos e hospitais da rede pública. Por exemplo: o Ministério da Saúde anunciou três medicamentos para câncer de pulmão no SUS. Dois deles tiveram pareceres favoráveis da Conitec em 2024 e 2025, mas só vão ficar disponíveis na rede este ano. Impacto orçamentário O anúncio de Lula não especifica qual substância seria oferecida pelo SUS, mas os estudos em curso usam semaglutida como base — o que a torna a candidata mais próxima de uma eventual incorporação. Nem o presidente nem o Ministério da Saúde informaram, após o anúncio, se o impacto orçamentário da medida já foi calculado. Esse foi um dos entraves para, até agora, o medicamento não estar no SUS na decisão da Conitec. Na ocasião, o órgão estimou o impacto considerando uma dose inicial de R$ 727,25. Com isso, considerando o uso contínuo, o impacto orçamentário acumulado em cinco anos seria de R$ 7 bilhões. 🚨 ANTES: para entender o impacto orçamentário, é importante saber antes qual é o protocolo clínico, que define quem é que vai ter acesso. Isso é o que vai dizer quantas pessoas vão poder ter acesso ao medicamento. (Entenda mais abaixo) Levando em conta os números do relatório — que apontam que, no primeiro ano (2026), ao menos 150 mil pessoas usariam o medicamento, considerando doses iniciais a partir de R$ 400 —, o impacto orçamentário seria de R$ 703 milhões. Em cinco anos, mantido o mesmo ritmo de crescimento usado pela Conitec na análise de 2025, o acumulado pode chegar a R$ 3,6 bilhões. Mas o número pode ser ainda maior, porque é preciso considerar que a obesidade é uma doença crônica, e boa parte desses tratamentos tende a ser contínua. Especialistas ponderam que, com relação ao custo sobre o sistema, é preciso levar em conta o quanto as doenças relacionadas à obesidade custam hoje: um paciente que sofre AVC custa mais de R$ 57 mil ao SUS, um paciente em diálise custa quase R$ 73 mil só no primeiro ano, um infarto gera custo médio de R$ 4,9 mil e uma internação por insuficiência cardíaca custa quase R$ 17,8 mil. Tirzepatida do Paraguai proibida no Brasil vira alvo de disputa judicial Protocolo clínico Atualmente, a rede pública não conta com nenhum medicamento aprovado para o tratamento da obesidade. E há uma grande expectativa, de médicos e pacientes, pelo acesso ao medicamento. No entanto, é preciso entender uma informação que muita gente ignora: apesar do nome popular, essas canetas não são emagrecedoras. Elas são utilizadas para dois tratamentos bem definidos: diabetes tipo 2 e obesidade – duas doenças crônicas que precisam ser controladas e supervisionadas. Com isso, a possibilidade de um medicamento como esse depende ainda de um protocolo clínico que defina parâmetros de acesso — ou seja, quem teria direito ao tratamento gratuito e em quais condições. Isso ainda não existe no SUS. Para ajudar a construir uma diretriz e contribuir para entender se isso funciona na rede pública, com as particularidades que tem, o Ministério da Saúde anunciou em junho desse ano um projeto piloto com pacientes à espera da bariátrica. Estão incluídos 250 pacientes que vão receber semaglutida em um protocolo acompanhado por profissionais da rede pública. A ideia é que, em dois anos de projeto, possa se compreender como aplicar isso à rede pública como um todo. A primeira aplicação só aconteceu no dia 26 de junho deste ano. Acesso ao medicamento não pode ser questão de status social Para o médico Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação do medicamento ao SUS é necessária — mas precisa ser tratada como política de Estado, e não como decisão de governo ou pauta eleitoral. "A incorporação desse medicamento é uma necessidade. Precisa ser feito com a garantia de continuidade do fornecimento, como uma política de Estado, não de governo, de partido, como algo eleitoreiro. É preciso garantir que vai ter distribuição para todo o país, de forma igualitária", afirma. Segundo ele, o ideal seria que o paciente tivesse acesso a uma linha de cuidado completa, com médicos, educadores físicos, nutricionistas, equipe e equipamentos necessários. Mas isso leva tempo — e, segundo Dorenelas, o paciente não tem esse tempo. Apesar disso, o médico reforça que será necessário estabelecer critérios clínicos bem definidos antes da incorporação, tanto para dimensionar o impacto orçamentário quanto para garantir que os pacientes incluídos tenham o tratamento. "A nossa indicação é que sejam incluídos os pacientes com obesidade diagnosticada, pacientes com sobrepeso mas com comorbidades como diabetes e hipertensão. Mas é preciso ver o que o Estado pode pagar. Isso vai acabar delimitando os critérios”, explica. Para a pesquisadora Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela USP, os medicamentos são uma demanda importante no tratamento da obesidade, e não se pode permitir que o acesso fique restrito a uma parcela da população. Porém, ela defende que uma eventual incorporação seja acompanhada da estruturação de uma política pública, com equipes multidisciplinares, centros especializados e um plano nacional para o tratamento da obesidade. "É preciso que o Ministério da Saúde debata o acesso ao tratamento e ao acompanhamento, mas sem reducionismo. Não dá para achar que falar de obesidade no SUS é apenas inserir os GLP-1 e que isso resolve o problema no país", afirma.