Zema se afastou de empresas da família para governar MG e se lança como opção ao bolsonarismo que apoiou em 2018 e 2022
Romeu Zema, partido Novo. Ismael Soares/SVM Romeu Zema Neto tem 61 anos, é empresário e governou Minas Gerais de 2019 a março deste ano, quando renunciou ao ...
Romeu Zema, partido Novo. Ismael Soares/SVM Romeu Zema Neto tem 61 anos, é empresário e governou Minas Gerais de 2019 a março deste ano, quando renunciou ao mandato para poder concorrer ao Palácio do Planalto nas eleições de outubro. Nesta segunda-feira (27), o Novo confirmou a candidatura dele à Presidência da República, em convenção nacional realizada em Brasília (DF). O partido tem encontrado dificuldades e o nome do vice na chapa ainda não foi definido (leia mais abaixo). Zema promete prisão na Amazônia, acena ao agro e ataca PT Nascido em Araxá (MG), em 28 de outubro de 1964, o candidato do Novo é formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e é herdeiro do Grupo Zema, um dos conglomerados mais tradicionais de Minas. A primeira empresa foi fundada há mais de 100 anos por Domingos Zema, imigrante italiano e bisavô do ex-governador de Minas. Com quase 500 lojas de eletrodomésticos, o grupo atua também em outros ramos, como o de combustíveis, venda de veículos, imóveis e o de serviços financeiros. Em entrevistas, Romeu Zema disse que, até assumir o comando do grupo no início da década de 90, trabalhou em diversas funções nas empresas da família, como frentista, balconista, estoquista, caixa, vendedor, analista de marketing e gerente. Ele permaneceu à frente das empresas da família até 2016. Embora diga que não havia se envolvido com política até disputar o governo de Minas Gerais pela primeira vez, Zema foi filiado ao PL de 1999 a 2018, quando migrou para o Novo e se elegeu apresentando-se como um "outsider". 🔎Um candidato outsider é um concorrente que surge fora do sistema partidário tradicional ou do meio político estabelecido, apresentando-se como uma alternativa renovadora. Na primeira disputa ao Palácio Tiradentes, apostando no perfil de gestor, Zema venceu o experiente Antonio Anastasia, assumindo o governo estadual. Quatro anos depois, foi reeleito, no primeiro turno, com 56% dos votos, superando Alexandre Kalil (35%), à época no PSD. Naquele ano de 2022, o político do Novo figurou entre os 20 candidatos mais ricos das eleições, segundo a declaração apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral, com um patrimônio de quase R$ 130 milhões. Divorciado, Romeu Zema tem dois filhos: Catharina e Domenico, que são frutos da relação com a ex-esposa Ivana Scarpellini. Romeu Zema e os filhos Catharina e Domenico Reprodução/Instagram Discurso 'antissistema' Para as eleições deste ano, Zema permanece com o verniz de gestor empresarial, com ênfase em falas da defesa da austeridade fiscal e da diminuição do tamanho do estado. Ele também busca ressaltar o discurso "antissistema", com críticas ao bolsonarismo – que ajudou a eleger em 2018 e apoiou em 2022 –, ao Centrão e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Zema elevou o tom dos ataques depois das revelações do caso Master. Em março, o político do Novo foi a Brasília protocolar um pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes após a divulgação de um contrato milionário do escritório da esposa do magistrado com o banco de Daniel Vorcaro. Na mesma época, disse que não faria aliança com PP e União Brasil diante da revelação da proximidade dos presidentes desses partidos – respectivamente, Ciro Nogueira e Antônio Rueda – com Vorcaro. Convenção do Novo oficializa Zema como candidato à Presidência Luiz Felipe Barbiéri/g1 Ainda em relação ao caso Master, Zema condenou os diálogos de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, em que o senador cobrava do então banqueiro recursos para o filme "Dark Horse", uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. Apesar das críticas, o político mantém o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como principais adversários. E já declarou que, se não estiver na disputa em um eventual segundo turno, apoiará um nome que represente o antipetismo. Definição de vice fica para depois Nesse cenário, Zema chegou à convenção partidária desta segunda sem ter um nome para anunciar como o candidato a vice da sua chapa. O mais cotado para a função era Geraldo Rufino, mas o empresário decidiu se lançar ao Senado pelo Podemos em São Paulo. Em uma entrevista, o ex-governador afirmou que o anúncio do candidato a vice ocorrerá até o dia 5 de agosto, prazo final para realização das convenções partidárias definido pela Justiça Eleitoral. "O que nós queremos é alguém ficha limpa. O brasileiro está cansado de ver essa política suja aí. Eu costumo dizer que é Brasília no luxo e o resto do Brasil no lixo", afirmou Zema em entrevista à Rádio Tupi. Na pesquisa Datafolha divulgada no dia 24 de julho, Romeu Zema aparece com 3% das intenções de votos no cenário de primeiro turno. O Novo aposta em um crescimento do candidato nas pesquisas ao longo da campanha, semelhante ao que ocorreu em 2018. De aliado a adversário da família Bolsonaro Zema ajudou a eleger Jair Bolsonaro em 2018 e se aproximou mais ainda da família do ex-presidente ao apoiá-lo no segundo turno das eleições em 2022 contra Lula. O ex-governador de Minas defendeu a anistia a condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023 em várias oportunidades. Também se alinhou no apoio a pautas caras ao eleitorado do ex-presidente, como projetos neoliberais e propostas voltadas à segurança pública. Além disso, tratou de ecoar críticas ao presidente Lula e defender uma união da direita para derrotar o PT. Romeu Zema declarou apoio a Bolsonaro em 2022 Adriano Machado/Reuters O pré-candidato do Novo, contudo, começou a se distanciar da família à medida que a disputa pelo espólio de Jair Bolsonaro se intensificou. Com o ex-presidente inelegível, Zema passou a construir uma candidatura própria à Presidência da República e descartou ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro. A relação azedou de vez quando Zema criticou publicamente Flávio por sua relação com Daniel Vorcaro, banqueiro envolvido em uma fraude de bilhões de reais. “Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa”, afirmou quando os diálogos de Flávio e Vorcaro vieram à tona. A fala gerou rápida reação negativa de quadros do Novo em função de alianças estaduais em que o partido terá candidatos que são aliados de Flávio Bolsonaro. Zema justificou aos correligionários que o posicionamento foi uma questão de "coerência", mas moderou o tom e passou a concentrar seus ataques no PT. Apesar do recuo, pouco tempo depois, Zema renovou as críticas a Flávio e disse que "quem anda com bandido merece ser visto com cautela". Aposta em críticas a ministros do STF Relembre trajetória do governador Romeu Zema, em vídeo de 2018, quando ele se elegeu governador de Minas pela primeira vez Zema tem adotado um tom crítico ao STF, de quem cobrou mais independência. Em março, o então pré-candidato do Novo se envolveu em uma troca de farpas com o ministro Gilmar Mendes. O ex-governador publicou uma série de vídeos feitos com inteligência artificial intitulada "Os Intocáveis", em que relacionou os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli, retratados com fantoches, ao escândalo do Banco Master. O vídeo gerou reação do ministro Gilmar, que pediu, ao colega Alexandre de Moraes, a inclusão de Zema no inquérito das "fake news". Para Mendes, o conteúdo é um vilipêndio à honra e à imagem do Supremo e à dele também. Ao se referir ao episódio, Gilmar deu uma declaração homofóbica, citando um exemplo de algo que o ministro avaliava que o ex-governador não gostaria de ser associado. "Imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo?", afirmou. Zema apresentou um pedido de investigação contra o ministro, que acabou arquivado pela Procuradoria Geral da República. Ainda no embate com o STF, o candidato tem dito que, se eleito, vai propor ao Congresso mudanças nas regras para indicações à Suprema Corte, como a fixação de uma idade mínima de 60 anos para ser ministro. Também tem defendido a adoção de uma lista de candidatos da qual o presidente terá de selecionar um, e o fim das decisões individuais (monocráticas) de magistrados. Isenção milionária de imposto Governo de MG concede R$ 2,2 milhões em isenção fiscal para empresa da família de Zema No mês passado, foi revelado que o governo de Minas Gerais concedeu uma isenção fiscal no valor de R$ 2,2 milhões para a empresa Eletrozema S/A, controlada pela família do ex-governador. O incentivo teve início em 25 de junho de 2024, ainda na gestão de Zema, segundo dados divulgados pelo próprio Executivo. Em nota, o ex-governador e presidenciável afirmou que as isenções à empresa da família dele são concedidas desde 2008, dez anos antes da primeira eleição dele ao Palácio Tiradentes, e que estão estritamente dentro da legalidade. Promessas e polêmicas Levantamento feito pelo g1 mostra que, de 12 promessas assumidas por Zema na eleição ao governo de Minas Gerais em 2022, quatro foram integralmente cumpridas, cinco foram parcialmente cumpridas e três compromissos não foram cumpridos. Ele não cumpriu, por exemplo, a promessa de reajustar o salário do funcionalismo estadual para recompor perdas inflacionárias. A promessa de privatizar estatais de Minas foi cumprida parcialmente, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) foi vendida em junho de 2026, mas o ex-governador não conseguiu privatizar a Companhia Energética Minas Gerais (Cemig). Como governador, Romeu Zema decidiu não morar no Palácio das Mangabeiras, residência oficial do Executivo local. Ele prometeu em 2018 bancar, do próprio bolso, o aluguel de uma casa e transformar a o Palácio em "museu das mordomias". Privatização da Copasa é concluída Nos quase oito anos em que esteve à frente do governo de Minas Gerais, Romeu Zema protagonizou algumas polêmicas com declarações. Em 2023, ao comentar a criação de uma aliança política e econômica entre os estados do Sul e do Sudeste, por exemplo, Zema defendeu o protagonismo das duas regiões em relação ao Nordeste e ao Norte. Em tom crítico, chegou a comparar o país a um produtor rural que dá "tratamento bom para as vaquinhas que produzem pouco e deixa de lado as que estão produzindo muito". A fala gerou forte reação de governadores do Nordeste, que classificaram o posicionamento como um "lampejo separatista" e uma leitura preconceituosa sobre a divisão econômica do país. Zema alegou ter sido mal interpretado e disse que sua fala foi tirada de contexto. Em 2025, Zema publicou um vídeo nas redes sociais ironizando o PT acompanhado do som de estouro de rojões. O vídeo repercutiu negativamente devido a uma lei de Belo Horizonte que proíbe o uso de artefatos pirotécnicos ruidosos. O governo mineiro precisou esclarecer posteriormente que o barulho dos fogos havia sido incluído digitalmente na pós-produção do vídeo para não infringir a norma. Neste ano, já como pré-candidato, durante um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Zema defendeu exigir a conclusão de estudos apenas dos homens beneficiários do programa Bolsa Família. Como justificativa, declarou que "as mulheres têm outras atribuições em casa, têm filhos, têm uma diferença muito grande com relação aos homens", gerando críticas por reforçar papeis tradicionais de gênero. Romeu Zema foi eleito governador de Minas Gerais pela primeira vez em 2018 Reprodução/JN